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Como se tornar um babaca

 
A sociedade, ao que tudo indica, conseguiu se tornar um grande babaca coletivo. Não aquele babaca clássico, barulhento, que se impõe pela grosseria explícita. É pior: tornou-se um babaca silencioso, anestesiado, que observa a própria decadência como quem assiste a um incêndio pela janela e pensa que talvez seja só mais um pôr do sol diferente.
O processo foi gradual. Um dia, acordamos e percebemos que tudo ao redor parecia uma piada mal contada — e não das boas. O que se lê, se ouve e se assiste parece ter sido escrito por roteiristas cansados, que desistiram de qualquer compromisso com a lógica. A humanidade parece competir para ver quem sustenta a maior bobagem com a expressão mais séria.
Mentiras se espalham como moda. Teorias absurdas ganham status de verdade alternativa. Idiotices sofisticadas circulam com a naturalidade de quem comenta o clima. A sociedade parece ter perdido o senso de realidade, como se estivesse vivendo numa dimensão paralela onde o absurdo virou norma e o bom senso, contravenção.
A internet, claro, funciona como catalisador. Não porque as pessoas acreditam em tudo que veem, mas porque veem demais. É um excesso tóxico: informação demais, opinião demais, certezas demais. E, ironicamente, entendimento de menos. A superexposição ao ruído transformou a realidade em algo maleável, moldável ao gosto de quem grita mais alto.
A sociedade atual parece sofrer de uma espécie de vertigem coletiva. A lógica virou opcional. A coerência, artigo de luxo. A verdade, um acessório que se troca conforme a ocasião. Tudo está controverso, invertido, estranho — e, pior, amplamente aceito.
E assim, o mundo segue, convencido de que está tudo normal. Normal acreditar no que convém. Normal distorcer o que incomoda. Normal transformar delírio em opinião válida. Normal tratar a realidade como se fosse um aplicativo com filtros infinitos.
Talvez o grande babaca não seja o indivíduo, mas o conjunto. Uma sociedade que desistiu de pensar, de questionar, de duvidar. Uma sociedade que abraçou o absurdo como estilo de vida.
E, sinceramente, normal é que não está. E talvez nunca mais esteja.

 

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