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A Luz no Fim do Túnel

 

 

Sempre tive uma relação… digamos… “protocolar” com a morte.

Não é amizade, mas também não é inimizade.

É mais aquele colega de trabalho que você não adiciona no WhatsApp, mas também não bloqueia. Eu sempre a tratei com respeito, como quem diz: “Olha, eu sei que você existe, mas não precisa vir falar comigo agora.”

Para mim, a morte sempre foi um fenômeno tão parecido com o nascimento que, se colocassem os dois. lado a lado, eu provavelmente confundiria quem é quem.

A diferença é que no nascimento todo mundo comemora, e na morte todo mundo fica apreensivo — talvez porque ninguém gosta de perder nada, nem controle remoto.

A espiritualidade humana tenta explicar o que acontece depois, mas a verdade é que ninguém voltou com um relatório técnico.

Então seguimos no escuro, literalmente, até porque o tal túnel nunca vem com iluminação de LED. E o medo… ah, o medo. Esse sim chega antes da morte, senta-se no sofá, abre a geladeira e ainda pergunta se pode ficar.

Alguns partem cedo, outros vivem tanto que já deveriam ganhar milhas por tempo de permanência. Mas uma coisa é certa: ela chega. E quando envelhecemos, as conversas mudam. Antes era sobre festas, viagens, planos. Agora é sobre exames, dores misteriosas e a previsão do tempo, porque aparentemente a meteorologia passa a ser um assunto de vida ou morte.

Sempre ouvi gente dizendo: “Eu não temo a morte. É o destino de todos nós.” Claro, fácil falar quando ela ainda está lá longe, quero ver manter esse discurso quando ela manda mensagem dizendo “cheguei”.

Mas a verdade é que, ao nascer, já ativamos o despertador da contagem regressiva — só não sabemos a hora que ele toca.

Eu, desde jovem, sempre disse com convicção: “Vejo a luz no fim do túnel.” Era quase um lema, uma frase de efeito, um bordão existencial. Mas agora, já na idade avançada, devidamente classificado pelo cálculo atuarial do INSS como “cliente premium da vida”, minha visão mudou.

Hoje digo com outra entonação, outra filosofia, outro peso:

“Agora vejo o túnel…”

Não é mais metáfora profunda.

É só a lâmpada da cozinha que eu deixei acesa porque esqueci o motivo de ter ido até lá.

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