Domingo já foi dia de churrasco, de radinho de pilha chiando na beira da janela, de Gre‑Nal pegando fogo com sol na cara e nervoso no estômago.
Hoje, domingo é dia de VAR. Esse ser inanimado,
metido a moderno, que chegou sorrateiro com ar de moço bom,
prometendo justiça, mas tirando o brilho das tardes
ensolaradas. Invadiu meu espaço como quem não quer nada, e quando percebi, já não havia mais volta.
Tenho um amigo vermelho — coincidência, claro, nada ideológico — que
vive dizendo que domingo é dia do “consórcio” ¹. Depois explico
essa terminologia, mas adianto que tem a ver com aquela sensação de que tudo é
decidido numa sala fechada, longe do gramado, longe da emoção, longe da vida
real.
Mas voltemos ao que interessa.
Eu tive o privilégio de assistir partidas acirradas de futebol raiz.
Aqui, novo alerta: mera coincidência, nada a ver com o “consórcio”, mas
no Olímpico e nos Eucaliptos jogava‑se futebol.
Lembram de Ortunho e Sapiranga? Bastava os dois em campo e o espetáculo estava garantido. Não precisava de
linha traçada, de ângulo
invertido, de cabine refrigerada. Tinha o radinho de pilha — banido pelo JT ², porque hoje tudo é proibido, tudo é regulado, tudo
é motivo para manual de conduta.
Naqueles tempos, tudo era possível. Até um bom jogo de futebol onde as
torcidas ocupavam espaços milimetricamente divididos: 50% x 50%.
A genitora do juiz era sempre homenageada, mesmo em datas não
comemorativas. E não havia maldade naquilo. Era folclore, era catarse, era o
tempero da arquibancada.
Hoje, esse gostinho de sacanagem não pode mais. É ofensa, é
discriminação, é processo.
Meu amigo vermelho do “consórcio” não se conforma com essas
mudanças.
Eu também não.
Antes, tudo tinha mais malícia, mas era honesto. Errou, tá
errado. Bola na mão era pênalti. Hoje, equivale a no mínimo cinco minutos de
discussão para definir a “expertise” do adversário.
Os gramados viraram autênticos Piscinões de Ramos: basta um sopro e tem
gente mergulhando como se disputasse medalha olímpica.
E lá longe, bem longe, nas cabines de imprensa, o locutor sorri. Sabe
que terá assunto para um tempo inteiro de análise daquilo que nem a tecnologia
consegue definir.
O VAR virou pauta, virou protagonista, virou estrela.
O jogo, coitado, virou figurante.
Sabe… VAR é uma m…
Comentários
Postar um comentário
Agradeço sinceramente pela sua leitura e pela presença neste espaço. Sua participação enriquece o diálogo e contribui para a construção de reflexões mais amplas. Seja sempre bem-vindo.