À população
de Porto Alegre,
Aos
responsáveis pelo patrimônio histórico,
Aos que ainda acreditam que uma cidade é mais do que um negócio,
É com profunda indignação que recebemos a notícia da iminente demolição do palacete construído em 1954 por Boaventura Garcia, mais tarde residência do jurista Lia Pires. Não se trata apenas de um imóvel antigo: trata-se de um marco arquitetônico, cultural e simbólico de uma Porto Alegre que, aos poucos, está sendo apagada em nome da especulação imobiliária.
O que vemos hoje é a repetição de um roteiro cansado. Um “investidor” adquire um bem histórico, o poder público assiste em silêncio, e a cidade perde mais um fragmento de sua identidade. O palacete da Dom Pedro II com a Marquês de Pombal — um exemplar raro do estilo espanhol, com quase mil metros quadrados de história — está prestes a virar pó. E por quê? Porque, para alguns, memória não vale tanto quanto metros quadrados vendáveis.
É revoltante
perceber que a mesma elite que destrói o que é nosso é a primeira a posar
sorridente diante de prédios centenários na Europa. Lá, admiram o patrimônio
alheio; aqui, tratam o próprio como obstáculo. Lá, celebram a preservação;
aqui, celebram o lucro rápido. É a velha lógica da elite do atraso: vende-se a
cidade como se fosse mercadoria, enquanto se lamenta — com falsa nostalgia —
que “Porto Alegre já não é mais a mesma”.
Não é mais a mesma porque vocês a destroem.
O novo Plano Diretor, moldado sob medida para interesses privados, abre caminho para que episódios como este se tornem regra. A cidade é negociada em gabinetes, enquanto sua população assiste impotente ao desaparecimento de bens que deveriam ser protegidos, valorizados e integrados à vida urbana.
Perder o palacete Garcia-Pires não é apenas perder uma casa bonita. É perder a chance de construir uma cidade que respeita sua própria história. É renunciar a um patrimônio que poderia servir à cultura, à educação, à memória coletiva. É permitir que Porto Alegre se torne um lugar sem passado — e, portanto, sem futuro.
Por isso,
esta carta é um chamado.
Um chamado à
responsabilidade pública.
Um chamado à
consciência coletiva.
Um chamado à
resistência contra a destruição sistemática do que nos pertence.
Que Porto
Alegre não aceite calada mais este golpe contra sua identidade.
Que a cidade desperte antes que tudo o que nos resta seja concreto, sombra e arrependimento.
Porto Alegre
merece mais do que isso.
E nós também.
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