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Quando Meus Amigos Não Me Escutam Mais

 

Em tempos de internet, tudo acontece tão rápido que, se você piscar, já perdeu três escândalos, duas tretas políticas e um vídeo de gato que já virou tendência mundial. As ideias brotam como pipoca no micro-ondas, e eu, nessa correria digital, virei praticamente um atleta do compartilhamento.

Leio tudo. Absolutamente tudo. Se tiver letra, eu consumo. Se tiver imagem, eu amplio. Se tiver áudio, eu aumento o volume. E se tiver erro de português, eu reposto mesmo assim.

Afinal, informação é poder — e eu me tornei o He-Man das fake news.

Reposto matérias de jornais, manchetes de TV, prints de portais, vídeos de gente que eu nunca vi na vida, áudios de vozes misteriosas que garantem ter “fontes confiáveis”, e claro, as fakes news — essas são meu ouro digital.

Sempre trazem algo extraordinário: 

Dólar caiu!

Dólar subiu!

Dólar desapareceu misteriosamente!

Banco vai quebrar, tire seu dinheiro!

Nova variante do mosquito da dengue!

E lá estou eu, firme, forte e conectado, transmitindo em Wi-Fi aquilo que o mundo inteiro já sabe desde anteontem.

Mas no meu grupo de amigos… 

Ah, no meu grupo de amigos…

Silêncio. 

Um silêncio tão profundo que parece até que mandei mensagem para o espaço sideral. 

Ninguém gosta. 

Ninguém comenta. 

Ninguém reage. 

Nem um kkkk, nem um “vixe”, nem um “cruzes”.

Nada. 

Zero. 

Vácuo digital.

É quando percebo, com a dor de um protagonista de novela das oito, que “Meus Amigos Não Me Escutam Mais”.

Eles não clicam, não abrem, não visualizam. 

Minhas notícias, outrora urgentes, agora são ignoradas com a mesma naturalidade com quese ignora panfleto de ótica no semáforo.

E eu fico ali, sozinho, dramaticamente sozinho, como um rádio AM tentando competir com o Spotify.

Talvez estejam ocupados. 

Talvez estejam cansados. 

Talvez tenham me silenciado. 

Talvez tenham me bloqueado. 

Talvez tenham criado um grupo novo sem mim — essa hipótese dói, mas é realista.

Mas sigo. 

Porque todo grupo precisa de alguém que avise que o mundo está acabando. 

Mesmo que ninguém leia. 

Mesmo que ninguém responda. 

Mesmo que ninguém escute.

E se um dia a bomba atômica realmente cair, eu quero estar em paz comigo mesmo, sabendo que avisei. 

Mesmo que só eu tenha visto a mensagem.

 

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