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A Sacola das Sardinhas

 

A primeira aventura pelas vielas do Porto parecia coisa de filme: ruas estreitas, fachadas azulejadas, cheiro de café com maresia… tudo tão bonito que dava vontade de pedir para a cidade ficar quietinha um minuto só para a gente conseguir prestar atenção.
Cada esquina era motivo para uma foto. E cada foto era motivo para mais turistas pararem, olharem e fotografarem também, como se estivéssemos todos numa coreografia espontânea de deslumbramento coletivo. Porto tem esse poder: transforma qualquer adulto responsável em criança solta numa loja de brinquedos.
Foi então que encontramos o templo sagrado da cultura portuguesa: uma loja de sardinhas. Mas não sardinhas comuns. Eram sardinhas com pedigree, sardinhas que pareciam ter passado por um curso de artes plásticas. Latas tão lindas que pareciam ter sido pintadas por artistas renascentistas em seus momentos de lazer. Vasculhamos as prateleiras como se estivéssemos procurando o Santo Graal marinho.
Escolhi minhas preciosidades:  1951 — meu ano de fabricação; 1963 — o ano em que minha esposa chegou ao mundo; 2023 — o ano da viagem; e uma lata original, porque tradição é tradição.
Primeiros euros voando da carteira, e saímos felizes, orgulhosos, quase emocionados. O que eu não sabia é que, naquele momento, eu não estava comprando sardinhas. Eu estava adotando uma entidade. Um ser. Um novo membro da família: a sacola.
A sacola das sardinhas.
A partir dali ela virou nossa sombra. Nosso mascote não oficial. Cada foto tirada tinha lá, em algum canto, a presença discreta — ou nem tanto — da sacola. Fotos nos pontos turísticos mais icônicos? Lá estava ela. A sacola. Sempre presente. Sempre aparecendo. Às vezes ousada, erguida como um troféu por alguém que nem percebia que a segurava.
Em fotos sérias, lá estava ela. 
Em fotos espontâneas, lá estava ela. 
Em fotos panorâmicas, lá estava ela, desafiando a lógica e aparecendo mesmo quando ninguém lembrava de tê-la levado.
Virou personagem. 
Virou símbolo da viagem.
Enquanto Porto nos oferecia paisagens de cartão-postal, arquitetura de cair o queixo e história em cada pedra, quem roubava a cena era… a sacola. A gloriosa, incansável, onipresente sacola com sardinhas.
E assim, no meio de tanta beleza, o que ficou eternizado foi esse detalhe improvável. Porque é assim que as viagens funcionam: você planeja ver monumentos, museus, pontes famosas… e acaba voltando para casa contando histórias sobre uma sacola que decidiu ser protagonista.

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