Amâncio era daqueles sujeitos que pareciam ter nascido à margem da afeição alheia. Tinha admiradores, é verdade, mas eram poucos. Suas sandices, quase sempre destituídas de lógica, faziam dele alvo constante das ironias que circulavam nas rodas de conversa à beira do fogo de chão, no galpão grande da fazenda. Com o passar dos anos, aquelas zombarias foram endurecendo o homem. Não lhe roubaram a ingenuidade, mas deixaram cicatrizes invisíveis. E como acontece com tantos na vida campeira, onde os dias são ásperos e as noites de geada não perdoam, Amâncio foi aprendendo a suportar os reveses sem dizer palavra. Ainda assim, guardava na alma um desejo que nunca revelou a ninguém. Numa manhã fria, durante a roda de chimarrão, as costumeiras provocações vieram outra vez. Eram as mesmas piadas, os mesmos risos, os mesmos olhares de canto. Mas naquele dia algo era diferente. Talvez o cansaço de ser sempre o motivo da graça. O sangue lhe ferveu nas veias. A face ruborizou-se. Lentamente, ...
Bem‑vindo ao blog de Nélson Menezes Florisbal — um lugar para histórias simples, humanas e cheias de verdade. Aqui você encontra crônicas breves que registram momentos do cotidiano: um gesto, um ruído, um encontro, um pensamento que surge no meio da pressa. São relatos que abraçam o leitor e mostram que, mesmo nos dias mais comuns, sempre há algo digno de ser contado.