No ano de 1956, morávamos com meus tios, numa fase de transição familiar. Minha tia, irmã do meu pai, era uma mulher de beleza interiorana, carinhosa e de voz mansa. Lembro-me muito dela. Como nunca pôde ter filhos, adotou-me como se eu fosse o tão desejado herdeiro. Alguns anos mais tarde, com o nascimento do meu irmão, transferiu para ele os cuidados e o carinho que antes dedicava a mim. Meu tio era alfaiate de mão cheia. Homem de porte atlético, bonachão e sempre com feições alegres, trabalhava com uma energia inesgotável. Lembro-me do seu ateliê coberto de peças de tecido, réguas de madeira, giz e moldes recortados em papel de embrulho. Na época a que se refere esta narrativa, ele e minha tia, que também tinha mãos de fada para a costura, produziam centenas de uniformes militares: calças, jaquetas e quepes verde-oliva. A tesoura deslizava pelo tecido, recortando cada peça com capricho e esmero. Ao final, lotes e mais lotes de uniformes eram amarrados em fardos, depois de pass...
Bem‑vindo ao blog de Nélson Menezes Florisbal — um lugar para histórias simples, humanas e cheias de verdade. Aqui você encontra crônicas breves que registram momentos do cotidiano: um gesto, um ruído, um encontro, um pensamento que surge no meio da pressa. São relatos que abraçam o leitor e mostram que, mesmo nos dias mais comuns, sempre há algo digno de ser contado.