O dia amanheceu nublado naquele bairro da periferia da cidade. Quem passava pela velha casa de taipa podia enxergar, por entre a ramagem da cerca-viva, o interior da sala simples, onde repousava o caixão, ladeado por duas velas que iluminavam a parede tosca, na qual um crucifixo metálico se destacava, refletindo seu brilho. Nas cadeiras de palha enfileiradas ao redor do ataúde, parentes e amigos se revezavam enaltecendo as qualidades do falecido, fato comum nesse tipo de situação. A tradicional frase: "Como era bom o Deoclécio!" era repetida à exaustão. Num canto da sala, atrás da cortina puída, dois meninos curiosos e risonhos faziam feições de quem zombava da situação. Em outro lado do recinto, rezadeiras chamadas para orar e derramar lágrimas em nome do morto, todas vestidas de preto, entoavam seus cânticos e lamentos. A viúva, amparada pelo irmão do falecido, soluçava entre prantos e lamentações. O grupo de solteironas, em outro canto, fazia gracejos. Os homens, de se...
Bem‑vindo ao blog de Nélson Menezes Florisbal — um lugar para histórias simples, humanas e cheias de verdade. Aqui você encontra crônicas breves que registram momentos do cotidiano: um gesto, um ruído, um encontro, um pensamento que surge no meio da pressa. São relatos que abraçam o leitor e mostram que, mesmo nos dias mais comuns, sempre há algo digno de ser contado.