Pedro do Burro, como era conhecido na vila, morava à beira do riacho. Para chegar em casa, só havia um caminho: atravessar uma velha pinguela de madeira. Em dias de chuva, a ladeira que levava até ela transformava-se num verdadeiro tobogã de barro. Ficar de pé naquela ribanceira era quase impossível. Mas Pedro conseguia. Lá ia ele, ladeira abaixo, equilibrando-se nos chinelos de tira de couro, presos entre dedos tortos de joanetes e unhas que mais pareciam garras. Ao avistar a ponte, suspensa por cordas castigadas pelo tempo e pelas intempéries, aprumava o olhar, balbuciava palavras incompreensíveis e seguia adiante. Nem sempre dava certo. Às vezes, o chinelo escapava, o pé deslizava e o tombo era inevitável. Mãos e joelhos esfolados, levantava-se resmungando contra a sorte e amaldiçoando o bolicheiro que lhe tinha vendido uma cachaça de péssima qualidade. Nessas horas, apelava para Nossa Senhora do Rosário. A pobre santinha já devia ter esgotado todo o seu estoque de bên...
Bem‑vindo ao blog de Nélson Menezes Florisbal — um lugar para histórias simples, humanas e cheias de verdade. Aqui você encontra crônicas breves que registram momentos do cotidiano: um gesto, um ruído, um encontro, um pensamento que surge no meio da pressa. São relatos que abraçam o leitor e mostram que, mesmo nos dias mais comuns, sempre há algo digno de ser contado.