No ano de 1956, morávamos com
meus tios, numa fase de transição familiar. Minha tia, irmã do meu pai, era uma
mulher de beleza interiorana, carinhosa e de voz mansa. Lembro-me muito dela.
Como nunca pôde ter filhos, adotou-me como se eu fosse o tão desejado herdeiro.
Alguns anos mais tarde, com o nascimento do meu irmão, transferiu para ele os
cuidados e o carinho que antes dedicava a mim.
Meu tio era alfaiate de mão
cheia. Homem de porte atlético, bonachão e sempre com feições alegres,
trabalhava com uma energia inesgotável. Lembro-me do seu ateliê coberto de
peças de tecido, réguas de madeira, giz e moldes recortados em papel de
embrulho.
Na época a que se refere esta
narrativa, ele e minha tia, que também tinha mãos de fada para a costura,
produziam centenas de uniformes militares: calças, jaquetas e quepes
verde-oliva. A tesoura deslizava pelo tecido, recortando cada peça com capricho
e esmero. Ao final, lotes e mais lotes de uniformes eram amarrados em fardos,
depois de passados a ferro a vapor.
Mas havia um detalhe que era a cereja do bolo: as fatiotas1 produzidas para os senhores elegantes da época. Eram feitas com tecido riscado, corte italiano e acabamento impecável.
Meu tio morreu cedo. Tinha apenas
quarenta anos quando partiu, levando consigo, como última veste, a sua
inseparável fatiota de riscado.
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