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O Contragolpe


Amâncio era daqueles sujeitos que pareciam ter nascido à margem da afeição alheia. Tinha admiradores, é verdade, mas eram poucos. Suas sandices, quase sempre destituídas de lógica, faziam dele alvo constante das ironias que circulavam nas rodas de conversa à beira do fogo de chão, no galpão grande da fazenda.
Com o passar dos anos, aquelas zombarias foram endurecendo o homem. Não lhe roubaram a ingenuidade, mas deixaram cicatrizes invisíveis. E como acontece com tantos na vida campeira, onde os dias são ásperos e as noites de geada não perdoam, Amâncio foi aprendendo a suportar os reveses sem dizer palavra.
Ainda assim, guardava na alma um desejo que nunca revelou a ninguém.
Numa manhã fria, durante a roda de chimarrão, as costumeiras provocações vieram outra vez. Eram as mesmas piadas, os mesmos risos, os mesmos olhares de canto. Mas naquele dia algo era diferente.
 Talvez o cansaço de ser sempre o motivo da graça.
O sangue lhe ferveu nas veias.
A face ruborizou-se. Lentamente, levantou-se do cepo onde estava sentado e percorreu com os olhos cada um dos presentes. Ninguém compreendeu o que se passava por trás daquele olhar.
Então, num gesto abrupto, chutou as lenhas do fogo de chão. Brasas espalharam-se pelo galpão, a chaleira tombou, derramando água fervente sobre a terra batida. Os homens saltaram para trás, surpresos com aquela explosão inesperada.
Mas aquilo era apenas o anúncio.
O verdadeiro contragolpe vinha de muito mais longe.
Vinha das gargalhadas à sua custa, dos silêncios que teve de engolir e das feridas que ninguém enxergava. Cada zombaria esquecida pelos outros permanecera viva dentro dele, acumulando-se como pressão sob uma rocha.
E quando finalmente rompeu, o choque atingiu a todos.
Amâncio desferiu contra si o último e mais terrível dos golpes. Mas o contragolpe não foi dele. Foi da própria vida, devolvendo àquela roda tudo o que, durante anos, semeara em forma de escárnio.
No instante em que o corpo tombou, um silêncio brutal engoliu o galpão.
Nenhum homem encontrou palavras. Nenhum riso sobreviveu.
Porque o verdadeiro contragolpe não faz ruído quando chega. Apenas devolve, no tempo certo, aquilo que um dia foi lançado ao mundo.
Pela primeira vez, compreenderam que toda ação, por menor que pareça, carrega em si a semente do retorno.
Um a um, saíram de cabeça baixa.

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