O dia amanheceu nublado naquele bairro da periferia da cidade. Quem
passava pela velha casa de taipa podia enxergar, por entre a ramagem da
cerca-viva, o interior da sala simples, onde repousava o caixão, ladeado por
duas velas que iluminavam a parede tosca, na qual um crucifixo metálico se
destacava, refletindo seu brilho.
Nas cadeiras de palha enfileiradas ao redor do ataúde, parentes e amigos se revezavam enaltecendo as qualidades do falecido, fato comum nesse tipo de situação. A tradicional frase: "Como era bom o Deoclécio!" era repetida à exaustão.
Num canto da sala, atrás da cortina puída, dois meninos curiosos e risonhos faziam feições de quem zombava da situação. Em outro lado do recinto, rezadeiras chamadas para orar e derramar lágrimas em nome do morto, todas vestidas de preto, entoavam seus cânticos e lamentos.
A viúva, amparada pelo irmão do falecido, soluçava entre prantos e lamentações. O grupo de solteironas, em outro canto, fazia gracejos. Os homens, de semblantes mais sérios, falavam e riam enquanto contavam fatos ocorridos com Deoclécio.
No terreiro, uma mesa posta com café, pamonha, bolinhos fritos e uma garrafa de cachaça completava aquele cerimonial.
Assim transcorria a cena do velório no interior. A chegada do padre era sempre saudada como a do enviado de Cristo para encomendar a alma do falecido, preparando-a para a chegada ao reino divino, onde, pela eternidade, descansaria do peso da vida terrena.
Passado o período de vigília, o corpo seguia em caminhada pelas ruas da cidade até a última morada:
"Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque você é pó, e ao pó voltará." (Gênesis 3:19)
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