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A Alma da Roça

 

A xícara de café repousava sobre a mesa. Embaixo dela, uma toalha de tecido áspero exibia manchas de tantas refeições passadas. O aroma forte do café misturava-se ao cheiro de lenha, fumo e tempo.

Os farelos de pão espalhados pela mesa desenhavam estranhas figuras, dependendo da imaginação de quem olhasse. Ao lado, o cinzeiro de vidro acumulava bitucas como troféus havia décadas.

Sentado num banco de madeira gasto pelos anos, Honório dormia o sono dos justos, dos que juravam estar apenas "descansando os olhos". A cabeça pendia perigosamente para um lado, os braços estavam largados, e de sua boca entreaberta escorria um fio de baba que desafiava a gravidade.

Aos seus pés, o cusco Pitoco acompanhava tudo, lambendo o assoalho de tábuas. Para o cachorro, aquela baba representava um café da manhã inesperado.

No canto da peça, iluminado pela luz alaranjada do fogão a lenha, o cenário parecia uma exposição de relíquias familiares. Na parede enfumaçada repousava uma fotografia antiga em que todos os parentes apareciam sérios, como se sorrir na frente da câmera fosse pecado. Ao lado, um crucifixo e uma gravura emoldurada de Santa Catarina, padroeira dos enfermeiros, protegiam aquela casa.

A janela de tramela rangia mansamente ao sabor da brisa. Por ela entrava o espetáculo dourado dos ipês floridos, que pintavam a paisagem de amarelo vivo. O sol surgia aos poucos por trás da mata, derramando luz sobre a floresta ainda úmida. No terreiro, um galo garnisé anunciava o amanhecer.

Lá fora, o telhado de santa-fé, encharcado pelo sereno da madrugada, gotejava pelos beirais. As gotas caíam ritmadas, como uma velha torneira da natureza marcando o compasso da manhã.

Enquanto isso, Theodósia já estava de pé havia horas. Mulher prática, não tinha tempo para contemplações filosóficas nem para concursos de ronco. Alimentava as galinhas, soltava os porcos, ordenhava as vacas e ainda encontrava disposição para lançar, de vez em quando, um olhar atravessado para a figura adormecida de Honório. Conhecia tão bem o marido que podia prever com exatidão o momento em que ele acordaria, dizendo:

— Mas eu nem dormi...

E assim seguia a vida na roça. Simples, verdadeira e cheia daqueles pequenos acontecimentos que não mudam o mundo, mas dão ao mundo um sentido danado de bom.

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