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A Benzedeira

 

Ainda menino, por volta dos cinco anos de idade, conheci uma benzedeira de ascendência quilombola. Minha mãe tinha uma fé imensa naquela mulher que, com suas orações e saberes populares, oferecia alívio para as dores do corpo e da alma. Sempre que surgia alguma aflição, era a ela que recorríamos.

Lembro-me com nitidez daquela senhora. Os cabelos grisalhos permaneciam escondidos sob um lenço cuidadosamente amarrado. O rosto, marcado pelo tempo e pelas dificuldades da vida, transmitia serenidade. O olhar profundo e expressivo, que parece enxergar além do plano físico. Vestia roupas simples, geralmente estampadas com flores, e carregava consigo medalhas de santos e guias de proteção.

O ritual era simples. Sobre a mesa havia quase sempre um copo d'água, uma vela acesa e alguns ramos de arruda ou guiné. Enquanto fazia o sinal da cruz sobre a pessoa atendida, murmurava orações que eu não conseguia compreender.

Naquela época, eu não entendia o significado de tudo aquilo. Apenas observava minha mãe acompanhar cada gesto com esperança estampada no rosto. Hoje percebo que a benzedeira oferecia algo que ia muito além das ervas e das rezas. Ela acolhia as pessoas. Escutava seus medos, suas dores e suas incertezas.

Passaram-se muitos anos desde então. Já não me recordo das palavras exatas que ela pronunciava, nem das orações que murmurava em voz baixa. Mas nunca esqueci a sensação de paz que ficava depois que ela partia. Minha mãe parecia mais tranquila, e a casa, de alguma forma, parecia mais leve.

Hoje, quando volto às lembranças da infância, vejo que aquela mulher simples não realizava milagres, mas fazia algo igualmente precioso: devolvia esperança às pessoas. Por isso, entre tantas lembranças que o tempo levou, a imagem daquela velha benzedeira continua viva em minha memória, iluminada pelo carinho e pela gratidão de um menino que jamais a esqueceu.

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