Para Trajano Ibarra Gusmão
Os anos haviam passado como marés
silenciosas, levando consigo quase tudo. Agora, ele era um velho de mãos
marcadas pelo tempo e de olhar gasto pelas distâncias percorridas. Do passado,
restavam apenas fragmentos dispersos.
Sentado em sua cadeira de palha
na varanda da casa de praia, contemplava o horizonte com a serenidade de quem
já não tinha pressa de chegar a lugar algum.
À sua frente, o azul infinito do
mar confundia-se com o céu, enquanto a espuma branca das ondas beijava a areia
morna em movimentos eternos e repetidos.
Mais ao longe, gaivotas cortavam
o vento em círculos inquietos. Seus gritos ásperos pairavam sobre a praia
enquanto observavam os pescadores que retornavam lentamente em seus barcos.
Foi então que algo despertou
dentro dele.
Não uma lembrança completa.
Apenas um lampejo.
Um rosto.
Tentou agarrar aquela memória
antes que ela escapasse. Mas a memória tem vontade própria. Quanto mais se
tenta capturá-la, mais ela se afasta, escorregando para regiões onde as mãos da
consciência não conseguem tocar.
Permaneceu imóvel.
Então, num único instante, tudo
se encaixou.
A lembrança voltou inteira. Não
era o rosto de um grande amor perdido. Não era alguém que partira. Não era uma
despedida.
Era ele.
Ele mesmo, sessenta anos antes.
Um sorriso suave iluminou o rosto
do velho.
E aquela foi a última lembrança
nítida que lhe veio à mente. Depois dela, os nomes começaram a desaparecer. Os
rostos perderam seus contornos. Os lugares dissolveram-se lentamente na névoa
silenciosa da velhice.
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