Desde pequeno sempre ouvi meus
pais, nos momentos mais tensos, pronunciarem palavras que me deixavam bastante
apreensivo. Se um acontecimento fugia do nosso entendimento ou trazia um certo
tom de incerteza, era costume dos mais velhos, com toda a sabedoria acumulada
durante anos de vida, afirmarem com plena convicção que o fato acontecido era
uma premonição de algo que já estava previsto para acontecer.
Normalmente, quando havia um
acontecimento triste ou alguma situação que refletia uma desgraça, era assim
que os antigos se manifestavam:
"Era para ser assim..."
Confesso que, durante muito
tempo, essa frase me incomodou. Parecia uma forma de aceitar o sofrimento sem
questionar, uma resignação silenciosa diante das dificuldades. Eu queria
entender as razões, encontrar culpados, corrigir os erros e mudar os rumos. Não
conseguia aceitar que certas coisas simplesmente acontecessem porque tinham que
acontecer.
Com o passar dos anos, porém, fui
acumulando minhas próprias experiências. Vi oportunidades escaparem pelas mãos,
amizades terminarem sem explicação, encontros surgirem por acaso e mudarem
completamente histórias inteiras. Presenciei momentos em que tudo parecia dar
errado, mas que mais tarde revelaram ter sido caminhos necessários para algo
melhor.
Foi então que comecei a enxergar
aquela velha frase sob outra perspectiva.
Talvez ela não significasse
conformismo. Talvez fosse apenas uma maneira simples de reconhecer que nem tudo
está sob nosso controle. Há acontecimentos que desafiam nossa lógica, planos
que seguem rotas inesperadas e decisões que o tempo se encarrega de explicar.
Hoje, quando me deparo com
situações que ultrapassam meu entendimento, lembro-me das palavras dos meus
pais. Não com a mesma apreensão de antigamente, mas com uma serenidade que só a
maturidade é capaz de proporcionar.
Afinal, por mais que façamos
planos, criemos expectativas e tentemos conduzir nossos destinos, existe sempre
uma parte da vida que escapa às nossas mãos.
E quando isso acontece, talvez os
antigos tivessem razão:
“Se tiver que ser, será.”
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