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Carrinho de Lomba


Na adolescência, havia uma brincadeira que, para nós, valia mais do que qualquer esporte: construir carrinhos de lomba. O pátio de casa se transformava em uma verdadeira fábrica automobilística. Em meio à algazarra e marteladas, nasciam projetos audaciosos que ocupavam nossas tardes e alimentavam nossa imaginação.

Entre nós havia os mais criativos, aqueles que pareciam enxergar além da madeira, dos pregos e dos “rolimãs”. Cada carrinho tinha personalidade própria, carregando a marca de quem o havia construído com as próprias mãos.

Nosso almoxarifado era improvisado. Tábuas velhas, sobras de madeira, pregos tortos e as preciosas rolimãs eram tesouros disputados. Hoje, passados tantos anos, já não me recordo exatamente de onde vinham aqueles materiais. Talvez dos ferros-velhos da vizinhança ou de algum depósito de sucatas. O que lembro perfeitamente era da alegria de encontrar uma peça que faltava.

A montagem era simples e rústica: uma tábua recortada em formato alongado, eixo traseiro fixo, eixo dianteiro móvel e um freio que dependia mais da coragem do que da engenharia. Muitas vezes, era a sola do tênis que nos salvava de um encontro prematuro com o chão.

Quando o carrinho finalmente ficava pronto, chegava o momento mais aguardado: o teste. Era preciso encontrar uma boa ladeira e, de preferência, um amigo disposto a dar o impulso inicial. Nem sempre dava certo. Às vezes, o carrinho desmontava antes da descida. Em outras, terminávamos a aventura com os joelhos esfolados e os cotovelos ardendo. Mas nada disso importava.

O que realmente importava era aquele instante mágico em que o carrinho ganhava velocidade. O ronco metálico dos rolimãs vibrando no asfalto ecoava como o motor de um carro de corrida. O vento batia no rosto, os olhos lacrimejavam e o coração disparava. Por alguns segundos, éramos donos da rua, do mundo e dos nossos próprios sonhos.

Hoje, quando a vida corre depressa demais e a tecnologia ocupa quase todos os espaços, recordo aqueles dias com uma saudade que aquece o coração. Os carrinhos de lomba eram feitos de madeira, pregos e rolimãs, mas carregavam algo muito mais valioso: a amizade sincera, a criatividade sem limites e a felicidade simples de uma infância que encontrava aventura em qualquer ladeira.

E talvez seja por isso que, ao lembrar daquele som inconfundível das rodas no asfalto, eu escute uma época inteira voltando para casa.

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