Pular para o conteúdo principal

Cerração

 

No Rio Grande do Sul, a neblina resolveu adotar um nome mais elegante e misterioso: cerração. E convenhamos, combina muito mais com o personagem. Afinal, "neblina" parece algo que aparece discretamente. Já "cerração" chega ocupando tudo.

Nos meses de inverno, ou naqueles dias abafados que prometem chuva e entregam indecisão, ela surge silenciosamente. Quando percebemos, ruas, campos, árvores e até o vizinho fofoqueiro da esquina desapareceram atrás de um gigantesco lençol branco.

A sensação é de ter sido transportado para a Londres dos filmes de suspense. Falta apenas um investigador de sobretudo caminhando lentamente entre sombras, desconfiando de cada esquina. Não é à toa que essa atmosfera lembra os cenários ligados às histórias de Jack, o Estripador. Entre becos, postes e silhuetas indefinidas, qualquer gato vira suspeito e qualquer arbusto parece esconder um segredo sombrio.

Os escritores adoram uma boa névoa. Edgar Allan Poe1 certamente sabia disso. Quando queria inquietar seus leitores, bastava cobrir tudo com uma camada de mistério. E funcionava. Afinal, poucas coisas provocam mais imaginação do que não enxergar claramente o que está diante dos olhos. Um tronco vira fantasma. Uma vaca distante vira monstro. E um amigo caminhando na direção certa pode parecer uma assombração.

Mas a cerração não vive apenas de fama literária. Ela também gosta de causar pequenos transtornos. Reduz a visibilidade, atrasa viagens e ainda interfere em algumas atividades agrícolas. É como aquela visitante inconveniente que chega sem avisar, toma conta da casa inteira e só vai embora quando bem entende.

Ainda assim, existe algo fascinante nesse espetáculo. Ao amanhecer, quando morros, campos e estradas desaparecem sob o véu branco, a paisagem gaúcha parece entrar em modo suspense. O mundo fica temporariamente sem contornos definidos, como se alguém tivesse apagado parte do cenário.

Porém aos poucos, as árvores reaparecem, as estradas voltam a existir e os fantasmas voltam a ser apenas troncos, vacas ou o vizinho caminhando para comprar pão.

 

1 Edgar Allan Poe (nascido em Boston, Massachusetts, EUA), foi um escritor, poeta, crítico e editor americano, famoso por sua exploração do mistério e do macabro. Seu poema "O Corvo" (1845) está entre os mais conhecidos da literatura.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Perdão. Peço desculpa, eu errei

  Pedir desculpa sempre me soou como aquele momento em que precisamos admitir que colocamos sal demais na comida: ninguém quer confessar, mas todo mundo percebeu. Em debates acalorados, então, a dificuldade dobra. A gente entra cheio de certezas, argumentos afiados e aquela convicção quase teatral… até perceber que exagerou na dose.   Errar faz parte — é quase um item obrigatório do pacote “ser humano”. O problema é que, quando estamos defendendo nosso ponto de vista com entusiasmo demais, qualquer detalhe vira motivo para levantar a voz, esticar a frase e criar uma divergência que, no fundo, não precisava existir. Depois, olhando com calma, percebemos que algumas palavras saíram tortas, outras vieram fortes demais, e a intenção se perdeu no caminho.   É aí que entra o gesto que quero destacar: o simples, porém poderoso, ato de pedir perdão. Não aquele pedido automático, dito só para encerrar o assunto, mas o sincero, que reconhece que nossas interpretações foram exagera...

São Jorge: guardião das batalhas que nunca cessam

    Desde menino, antes mesmo de entender o peso das palavras ou o sentido das crenças, eu já convivia com a figura imponente de um cavaleiro que parecia vigiar a casa inteira. São Jorge — montado em seu cavalo branco, lança firme, dragão aos pés — era mais do que um santo. Era um guardião silencioso, desses que não precisam falar para que a gente sinta a presença. Na parede da sala, pendurado um pouco torto, vivia um quadro já desbotado pelo tempo. Minha mãe o tratava como relíquia. Ao lado dele, sempre repousava uma palma benta do Domingo de Ramos, guardada com o mesmo cuidado com que se protege um segredo antigo. Ela dizia que aquilo afastava maus olhados, invejas, sombras que às vezes rondam a vida da gente sem pedir licença. E quando o céu escurecia de repente, quando trovões rasgavam o silêncio e os relâmpagos iluminavam nossa casa humilde, lá ia minha mãe — firme, devota, corajosa — fazer sua prece ao guerreiro. Era bonito de ver: enquanto o mundo lá fora parecia ...

O Relógio

Sempre tivemos uma relação pouco amistosa, eu e ele.  Na infância, era o encarregado de me arrancar da cama para a escola. Nos dias em que alguma moléstia infantil me derrubava, lá estava ele marcando com precisão o horário dos remédios — aqueles de sabor salobro que pareciam castigo. Na adolescência, tivemos alguns momentos de trégua. Quando eu aguardava ansioso para encontrar a namoradinha, a pressa dos ponteiros finalmente jogava a meu favor. Mas, ao final das noitadas com amigos pelos bailes da vida, quando amanhecia, lá estava ele novamente, em parceria com minha mãe:  “Menino, já é hora de acordar. Você não tem vergonha de dormir até essa hora?” O tempo passou, e ele permaneceu. Registrou meu ingresso nos escritórios, definiu turnos, intervalos, almoços. Sempre ele, um perseguidor implacável do tempo.  Hoje, quando a idade enfim me concedeu o justo descanso da aposentadoria, continua marcando — agora com velocidade galáctica — o momento da minha extinção.  Mas,...