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Churrasco de Costela

 

Churrasco de costela é coisa sagrada na campanha. Basta um fogo de chão bem atiçado, uma costela no braseiro e meia dúzia de gaudérios em roda para a noite voar mais ligeiro que quero-quero assustado.

No galpão, a chaleira chia na "trempe", o amargo corre de mão em mão e a "canha" aparece de vez em quando para espantar o sereno. Num canto, o cusco baio dorme de um olho só, sempre atento a algum naco desgarrado.

Sentado num "cepo" de guajuvira, sobre um pelego batido de uso, o peão pica o fumo para o palheiro enquanto o angico crepita no fogo. As brasas alumiam os rostos curtidos de sol e fazem dançar as sombras pelas tábuas do galpão.

Entre um mate e um gole de pinga, os "causos" vão crescendo. Um vivente garante que laçou um touro tão grande que levou três dias para encontrar a outra ponta do laço. Outro gaudério, já "entonado" pela canha, jurava ter um cavalo tão ligeiro que montava de manhã e apeava no destino no dia anterior.

As gargalhadas sacodem a roda, mas ninguém duvida muito, porque depois da segunda canha até mentira ganha documento.

Enquanto isso, a costela domina a grelha. A gordura pinga nas brasas, as labaredas se erguem e o cheiro toma conta do galpão. Volta e meia surge algum apurado querendo saber se já está pronta.

— Pronta? Bah! Costela boa não se assa no relógio. Se assa na paciência.

As horas correm mansas. A carne amacia, a prosa se espicha e a amizade se fortalece.

Quando as últimas labaredas se rendem à madrugada, fica a verdade que todo gaúcho conhece: o fogo de chão nunca assa só a costela. Assa lembranças, tempera amizades e mantém viva a alma da campanha. A carne acaba, a pinga termina e o fogo vira cinza. Mas a tradição segue em brasa no peito dos viventes.


Glossário da Crônica Churrasco de Costela

Amargo - Nome dado ao chimarrão, bebida tradicional preparada com erva-mate e água quente.

Angico - Árvore de madeira dura, muito utilizada como lenha para fogo de chão devido ao calor e à brasa que produz.

Canha - Cachaça. Bebida comum nas rodas de prosa campeira.

Causo - História contada de forma descontraída, muitas vezes exagerada para provocar risos e admiração.

Cepo de guajuvira - Toco ou pedaço do tronco da guajuvira, madeira nobre e resistente, usado como banco improvisado.

Cusco baio - Cachorro sem raça definida, de pelagem baia (amarelada ou castanha clara).

Fogo de chão - Método tradicional de churrasco feito diretamente sobre brasas produzidas pela lenha.

Gaudério - Homem campeiro, andarilho ou personagem ligado às tradições da pampa.

Guajuvira - Árvore de madeira muito resistente, comum na região Sul.

Matear - Tomar chimarrão em roda de conversa.

Naco - Pedaço de carne.

Palheiro - Cigarro artesanal feito com palha de milho e fumo de rolo.

Peão - Trabalhador rural das estâncias e fazendas.

Pelego - Pele de ovelha curtida usada para forrar bancos, selas ou servir de assento.

Sereno - Umidade da noite que se forma ao ar livre.

Trempe - Suporte de ferro ou estrutura colocada sobre o fogo para sustentar panelas e chaleiras.

Vivente - Pessoa, indivíduo. Muito usado na linguagem campeira.


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