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Corneta


Ontem fui interpelado por um amigo de longa data, santista e torcedor do “Peixe”. Ele carrega na bagagem uma vantagem difícil de contestar, afinal, por muitos anos Pelé foi o maior símbolo do Santos e do futebol mundial.

Mas não é sobre o Rei que quero falar. Quero falar dessas brincadeiras provocativas que os torcedores direcionam aos rivais. No futebol, criou-se o hábito de descontrair às custas da desgraça alheia, esportivamente falando.

Perguntou ele:

— E o teu Grêmio, vai ser rebaixado de novo?

Respondi sem titubear:

— Vai. E será o único clube tricampeão da Segundona. Um feito reservado apenas para quem é "Campeão de Tudo".

Naturalmente, veio a réplica. Depois, a tréplica. E assim a conversa seguiu, como acontece há décadas entre torcedores que sabem rir das vitórias e das derrotas.

O futebol, por ser uma paixão de massas, acabou transferindo para outras situações da vida essa disputa bem-humorada de zombar do adversário. Surgiu daí a famosa "corneta". Não o instrumento musical, mas a expressão popular de provocar, tirar sarro, brincar com o infortúnio do outro.

O problema é que a corneta, que deveria ser apenas um exercício de leveza, ganhou novos contornos. Nas redes sociais, muitas vezes deixou de ser brincadeira para se transformar em ofensa. O que antes provocava risos passou, em certos casos, a alimentar rancores e acirrar ânimos de quem não compreende ou não aceita o espírito da provocação.

Ainda assim, quando praticada com respeito, a corneta continua sendo uma das tradições mais curiosas do futebol. Ela nunca escolhe lado definitivo. Hoje sopra para um, amanhã para outro. Funciona como um pêndulo que oscila conforme os resultados do campo.

No fim das contas, a maior sabedoria está em saber que ninguém escapa dela. Quem hoje toca a corneta, amanhã pode acabar ouvindo a música. E talvez seja justamente aí que resida a graça do futebol: levar a rivalidade a sério, sem jamais perder a capacidade de rir de si mesmo.

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