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De Roupão e Pantufa

 

Por anos, durante minha jornada laboral, conversávamos sobre como seria a aposentadoria. Aquele momento tão aguardado após o cumprimento da missão de trabalho, num país de tantas contradições, onde o sistema previdenciário nem sempre funciona adequadamente.
Tudo girava em torno de projetos futuros: viajar, morar na praia, ter mais tempo com a família, enfim, desfrutar das conquistas, se é que elas vieram. Foram muitos os projetos de vida.
Lembro bem das brincadeiras que fazíamos sobre como seria o dia de um aposentado. Acordar tarde, olhar pela janela e sorrir. Tudo era curiosidade e imaginação
O fato é que, quando esse dia chegou para mim, algo curioso aconteceu.
Já aposentado, com o ato administrativo devidamente publicado, afinal eu era servidor público, acordei cedo, como sempre fazia. Tomei banho, tomei café, dei um beijo na esposa e nos filhos, vesti o melhor terno, coloquei a gravata e lá fui eu para mais um dia de labuta.
Ao chegar à sala onde, por mais de trinta anos, exerci minha atividade profissional, notei algo estranho. Os colegas me olharam de uma maneira diferente das outras vezes.
Sentei-me à mesa de trabalho e foi então que surgiu uma espécie de burburinho. Parecia que eu estava assistindo a uma peça teatral de humor. Todos riam.
Intrigado, perguntei:
— Por que estão rindo?
Aí sim, o riso foi geral e intenso.
Lá do fundo da sala, alguém respondeu com ironia:
— O que você está fazendo aqui, aposentado?
Foi então que a ficha caiu. O rosto esquentou, as mãos começaram a suar e eu me dei conta da monumental bobagem que acabara de cometer.
Então exclamei:
— Putz... que merda!
Juntei o que restava nas gavetas e saí. Nunca mais voltei.
Mas restou uma lição daqueles tempos em que discutíamos nossos propósitos para o futuro. Eu sempre afirmava, com convicção, que faria algo diferente da maioria, pois não me via de roupão e pantufa, buscando o jornal na caixa de correspondência.
A vida é muito mais do que isso.
Hoje estou aqui, escrevendo.

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