Desde o primeiro ser humano, de
Afrodite a Cleópatra, de Narciso aos influenciadores digitais, contemplar a
própria imagem parece ser uma das atividades favoritas da humanidade.
Hoje, o espelho continua
exercendo essa nobre missão. Está ali, paciente, aguardando nossa chegada
matinal para entregar um relatório nem sempre solicitado. Ele informa, sem a
menor diplomacia, que surgiram novas rugas, que os cabelos brancos avançaram durante
a madrugada e que aquela sobremesa da semana passada não desapareceu por
milagre.
Confesso que o utilizo apenas por
necessidade. Mas reconheço seu enorme prestígio social. Há quem passe diante
dele cinco vezes antes de sair de casa e retorne uma sexta apenas para
confirmar a quinta avaliação.
Dizem que o espelho revela a
verdade. Tenho minhas reservas. Se fosse tão sincero assim, mostraria também a
arrogância escondida atrás de um sorriso perfeito, a bondade por trás de um
rosto comum ou a generosidade de alguém que jamais apareceu em capa de revista.
Mas não. Seu interesse limita-se à superfície. É um especialista em cascas.
Ainda assim, nós o consultamos
diariamente. Alguns procuram defeitos. Outros procuram qualidades. Quase todos
procuram aprovação. O curioso é que acabamos aceitando a opinião de um pedaço
de vidro como se ele fosse autoridade em identidade humana.
Talvez sua maior esperteza seja
justamente essa: convencer-nos de que somos apenas aquilo que ele devolve. Como
se uma pessoa pudesse ser resumida à simetria do rosto, ao corte de cabelo ou à
quantidade de linhas que a idade desenhou na pele.
O espelho mostra um rosto. A
vida, essa auditora muito mais rigorosa, revela o restante.
E quando os anos passam, levando
embora a juventude com a mesma rapidez com que levaram os cabelos, percebemos
algo que o espelho jamais conseguiu ensinar. Ninguém é lembrado pela imagem que
admirava todas as manhãs. As pessoas são lembradas pelas histórias que
construíram, pelos afetos que deixaram e pelas marcas que gravaram nos outros.
O vidro registra aparências. A
memória registra presenças
E, felizmente para todos nós, a
memória enxerga muito melhor do que o espelho.
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