Ele
era gordo, rosto sardento, cabelos cor de fogo, calçava tênis com os cadarços
sempre soltos e adorava atirar pedras nas vidraças alheias. Fora o horário em
que os professores da escola tinham de suportar suas travessuras, andava pelas
ruas do bairro arrumando confusão. Ora corria atrás dos gatos da vizinhança,
ora surrupiava laranjas da quitanda do seu Alfredo.
Um
dia ganhou do pai uma bicicleta verde e amarela. Na escola, não perdoaram:
—
Lá vem o papagaio!
Ele
respondia do jeito que sabia: na pancada.
Naquele
tempo, ainda não existia a palavra "bullying", mas já existiam
apelidos cruéis e crianças dispostas a transformar a vida umas das outras em um
inferno. César “Brutus”, esse era seu nome, fazia questão de retribuir
na mesma moeda, com juros e correção monetária.
Depois
de machucar seriamente um colega, foi expulso da escola. Sumiu das ruas e, pela
primeira vez, o bairro conheceu certa tranquilidade. Os gatos agradeceram. Seu
Alfredo também.
Veio
a pandemia. As ruas ficaram vazias. Um dia correu a notícia: Brutus havia
contraído a peste e morrido.
O
bairro entristeceu
Foi
curioso. Durante anos, todos reclamaram do gordo. Mas bastou ele desaparecer
para virar lembrança.
E
assim o maior peste do bairro conseguiu sua última travessura: fez falta
justamente às pessoas que não o suportavam. Logo o bairro, que durante anos
reclamara dele. Logo as mesmas pessoas que mudavam de calçada quando o viam se
aproximando. Logo aqueles que sonhavam com um dia sem suas traquinagens.
A
bicicleta verde e amarela nunca mais rodou pelas ruas da cidade.
E
foi assim que todos descobriram uma velha verdade: enquanto estava por ali,
César Brutus era um problema. Quando deixou de existir, virou saudade.
Como
acontece com quase todos os pestes... e com quase todos nós.
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