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Por Favor, Salvem a Santinha!


Hoje acordei sem a criatividade habitual para escrever. Tenho textos prontos e inacabados, mas resolvi não os publicar. Falam de política, esporte e outros assuntos que costumam ocupar espaço demais no cotidiano.

Fui até a janela do apartamento. Lá fora, o tempo estava carrancudo. Dizem que a culpa é do “El Niño”. Eu suspeito que seja outra coisa. Mas deixemos as questões existenciais para outro momento.

Ontem teve Gre-Nal.

Notadamente uma pelada, no sentido mais pejorativo da palavra. Se alguém me dissesse que a bola era um objeto desconhecido para os jogadores, eu acreditaria. Faltava criatividade, sobrava cautela. Os dois times pareciam ter assinado um pacto de não agressão. Chega a ser risível.

Talvez por isso minha atenção tenha escapado do jogo.

Como um relâmpago, o presente se apagou. De repente, voltei a ser criança.

Estou novamente à beira de um riacho. A água corre tranquila, sem conhecer a pressa dos adultos. Nas minhas mãos, um barquinho feito de folha de caderno. Com todo o cuidado do mundo, eu o entrego à correnteza e acompanho sua viagem.

Naquele tempo, tudo tinha graça.

Existiam apenas os sonhos.

E eu era um pescador deles.

Sentado à margem do riacho, observando meu barco de papel, penso na fé. Não na fé dos livros ou dos discursos, mas naquela fé simples da infância, que acredita sem exigir explicações.

Então ela aparece.

Primeiro como lembrança.

Depois como imagem.

Por fim, como presença.

Vejo a Santinha.

Pequena, iluminada, serena, dessas que habitam os altares das avós e os cantos mais silenciosos das casas.

Naquele instante, tudo desaparece. O céu carrancudo, o Gre-Nal, a política, as inquietações do mundo. Fica apenas uma paz antiga que eu julgava perdida.

Abro os olhos.

Estou novamente diante da janela do apartamento. O dia continua cinzento, mas já não importa. Em algum lugar da memória, o menino continua sentado à beira do riacho, acompanhando seu barquinho de papel e acreditando que ele chegará ao mar.

Então, em silêncio, como quem faz uma oração sem perceber, eu agradeço e sussurro:

"Por favor, salvem a Santinha."

Não a de gesso.

Mas aquela que cada um carrega dentro de si.

A Santinha da esperança.

Porque quando ela aparece, até os dias mais nublados parecem encontrar um pouco de luz.

 

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