Dia desses,
numa mesa de bar, reunido com antigos colegas de trabalho, entre uma cerveja
gelada, petiscos e os assuntos de sempre, discutíamos política, futebol e, como
não poderia faltar, as famosas bets.
Foi então que
um dos parceiros soltou uma observação que arrancou risos imediatos:
— Essas
reuniões mensais que fazemos são uma concessão da minha esposa. Segundo ela, eu
preciso reservar um tempo para encontrar os amigos.
A gargalhada
foi geral.
Alguns
entenderam a ironia de imediato. Outros, mais sisudos, encararam a declaração
com certa perplexidade.
— Como assim?
Tu precisas de autorização para sair de casa?
Outro emendou,
cheio de convicção:
— Lá em casa
sou eu quem manda. Vou aonde quero e ninguém se mete nos meus assuntos.
O comentário
produziu um silêncio curioso. Houve troca de olhares, mas ninguém quis entrar
em debate. Afinal, certos assuntos são como vespeiros: melhor não cutucar.
A conversa
logo tomou outro rumo, mas a cena ficou martelando na minha cabeça.
Na verdade, a
tal "concessão" da esposa talvez não fosse um “salvo-conduto”. Talvez
fosse apenas o reconhecimento de algo simples: amizades também precisam de
espaço para sobreviver. E um casamento duradouro tem menos a ver com autoridade
e mais com entendimento.
No fim das
contas, quem vive a dois aprende uma verdade que raramente aparece nos
discursos mais valentes. Dentro de casa, muitos gostam de dizer que mandam,
decidem e dão a última palavra.
Eu também.
Tanto que,
quando cheguei em casa naquela noite, contei à minha esposa toda a conversa e
avisei:
— Hoje escrevi
uma crônica sobre isso.
Ela sorriu e
respondeu:
— Depois eu
leio para ver se pode publicar.
E assim
terminou qualquer discussão sobre quem tem a última palavra.
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