Na infância, quando a primavera
chegava, uma das brincadeiras que mais nos encantava era caçar borboletas. Nas
tardes ensolaradas, pelo jardim de casa, entre gerânios, rosas e margaridas,
elas dançavam no ar com uma liberdade que só hoje compreendo.
Passeavam de flor em flor, como
se bordassem caminhos invisíveis sobre os canteiros. Às vezes surgia apenas
uma; outras, um verdadeiro “panapaná”(1) colorido tomava
conta do jardim. Havia borboletas amarelas, vermelhas, verdes e pretas. Mas
existia uma que despertava nossa fascinação: uma rara borboleta de azul
cintilante que parecia carregar um pedaço do céu nas asas.
Justamente por ser a mais bela,
era também a mais perseguida.
Na inocência daqueles dias, não
entendíamos que aqueles frágeis seres estavam apenas cumprindo o curso natural
da vida. Ignorávamos a longa jornada que começa no ovo, passa pela lagarta e
pela crisálida, até florescer na forma perfeita da borboleta.
Armados com nossos “puçás”(2),
seguíamos em perseguição. Quando conseguíamos capturá-las, sentíamos o orgulho
de uma conquista. Elas permaneciam quietas entre nossos dedos, rendidas à
curiosidade infantil.
Mas a borboleta azul era
diferente.
Por algum capricho do destino,
ela quase nunca se deixava apanhar. Escapava sempre no último instante, leve e
inalcançável, como se conhecesse antecipadamente cada movimento nosso.
Hoje, quando vejo borboletas
sobrevoando o jardim de casa, paro por alguns instantes para observá-las.
Continuam frágeis e exuberantes, dançando ao sabor do vento como faziam naquele
tempo.
E então me pergunto:
Que caçador fui eu?
Jamais capturei uma borboleta
azul.
Talvez porque algumas coisas,
justamente por serem belas e raras, nasceram apenas para ser admiradas.
(1) Panapaná (ou panápaná) termo de origem indígena utilizado
para designar um conjunto numeroso de borboletas que voam agrupadas, formando
um espetáculo de cores e movimento na natureza.
(2) Puçá - é o nome dado a uma pequena rede presa a um aro e a
um cabo, usada para capturar insetos, borboletas, peixes pequenos ou outros
animais de pequeno porte.
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